A 11 de janeiro de 2009, um homem da Califórnia escreveu duas palavras na Internet: «Running bitcoin». Sem ponto final, sem explicação, sem thread a seguir. Era uma mensagem de estado sobre um programa que estava a correr no computador dele.

Hoje, a frase é uma das mais citadas da história do Bitcoin. O que quase ninguém sabe: para o homem que a escreveu, ela foi verdadeira uma segunda vez nesse mesmo ano — de uma forma que ele nessa altura não podia adivinhar.

Quem foi Hal Finney?

Hal Finney, nascido a 4 de maio de 1956 em Coalinga, Califórnia, era criptógrafo muito antes de existir o Bitcoin. Trabalhou com Phil Zimmermann no PGP — aquela encriptação que pela primeira vez tornou o e-mail seguro contra escutas para pessoas normais e que o governo dos EUA, no início dos anos noventa, achou tão perigosa que investigou Zimmermann durante três anos. Finney foi um dos primeiros funcionários da empresa que daí nasceu e manteve-se programador até se reformar, no início de 2011.

Em paralelo, escrevia na lista de correio dos cypherpunks, aquele círculo de programadores, matemáticos e ativistas que nos anos noventa defendia uma tese simples: a privacidade num mundo digital não nasce de leis, nasce de código. Finney mantinha um dos primeiros remailers anónimos. Construía as coisas sobre as quais os outros discutiam.

Em 2004 chegou o mais perto do objetivo: RPOW, Reusable Proof of Work — um meio de pagamento digital cujas unidades assentavam em provas de trabalho e podiam ser passadas adiante. Funcionava. Só que continuava a precisar de um único servidor como eixo central. Foi exatamente essa lacuna que ficou por fechar.

Quatro anos depois, foi outra pessoa que a fechou. E Finney percebeu de imediato o que tinha à frente.

11 de janeiro de 2009: duas palavras

A 3 de janeiro de 2009 nasceu o bloco génese. Poucos dias depois, Satoshi Nakamoto publicou a primeira versão do software. «When Satoshi announced the first release of the software, I grabbed it right away», escreveu Finney mais tarde. Pô-la a correr — e publicou a frase que lhe iria sobreviver. Na hora local da Califórnia ainda era 10 de janeiro; é nesse dia que, até hoje, também arranca a Running Bitcoin Challenge.

O que «running bitcoin» significava tecnicamente na altura: o cliente de 2009 era um único programa — nó, carteira e mineração num só. Quem o arrancava passava a manter um nó completo: guardava toda a cadeia de blocos, verificava cada transação e passava-a adiante. Quem, além disso, ligasse «Generate Coins» nas opções, minerava logo também. Finney fez as duas coisas.

Não havia ali nada de solene. No computador dele corria o software, e nessa altura quase mais ninguém fazia o mesmo. «I think I was the first person besides Satoshi to run bitcoin», escreveu mais tarde — formulado com cuidado, e esse cuidado justificava-se: a análise dos primeiros ficheiros de registo sugere que nos primeiros dias corriam ainda mais um ou dois computadores. Na ordem de grandeza não muda nada. Nessa altura, a rede contava-se pelos dedos de uma mão.

«I mined block 70-something», escreveu sobre os primeiros dias — nessa altura a dificuldade estava em 1, um processador normal chegava para um bloco. Parou porque o computador aquecia e o barulho da ventoinha o incomodava. «In retrospect, I wish I had kept it up longer», escreveu em 2013, «but on the other hand I was extraordinarily lucky to be there at the beginning.» Vale a pena parar um segundo nisto: a rede Bitcoin eram meia dúzia de computadores — e um deles foi desligado por fazer barulho a mais.

A primeira transferência de Bitcoin: bloco 170

A 12 de janeiro de 2009, um dia depois do tweet, Satoshi Nakamoto enviou-lhe dez Bitcoin. Para testar. Foi a primeira transação Bitcoin entre duas pessoas, registada no bloco 170 — ainda hoje consultável na blockchain, com a mesma prova do dia em que foi escrita.

Nos dias seguintes, Finney trocou e-mails com Satoshi, reportou erros, fez sugestões. Não foi apenas um dos primeiros utilizadores. Foi a primeira pessoa a levar aquilo a sério.

O segundo «Running»: 2009 foi também o seu ano de corrida

Aqui vem a parte que falta na maioria dos textos sobre Hal Finney.

Quando escreveu «Running bitcoin», ele próprio estava na melhor forma física da sua vida. Nas suas palavras: «I was in the best shape of my life at the start of that year, I'd lost a lot of weight and taken up distance running. I'd run several half marathons, and I was starting to train for a full marathon.» Tinha emagrecido bastante, várias meias maratonas nas pernas, o primeiro treino de maratona começado. A mulher contou mais tarde que ele treinava para um tempo de qualificação para Boston.

No mesmo ano em que a rede começou a correr, Hal Finney corria também. E foi nesse mesmo ano que deixou de o fazer.

Agosto de 2009: o diagnóstico

«O meu corpo começou a falhar», escreveu. Fala arrastada, menos força nas mãos, pernas que já não recuperavam. Em agosto de 2009 recebeu o diagnóstico: ELA, esclerose lateral amiotrófica. Uma doença que destrói exatamente as células nervosas que comandam os músculos. Primeiro as pernas, depois os braços, depois a fala, no fim a respiração. A cabeça mantém-se lúcida. A pessoa assiste a tudo.

Oito meses antes treinava para uma maratona.

Quatro meses depois do diagnóstico esteve mesmo assim na partida da primeira Santa Barbara International Marathon. As últimas duas milhas fê-las a andar, apoiado numa bengala, com a mulher Fran ao lado e à volta a equipa «South Coast Fights ALS». A angariação de donativos tinha sido ideia da Fran; o dinheiro foi para a investigação local sobre a ELA. Para o ano seguinte, o plano era que chegasse à meta em cadeira de rodas.

«Bitcoin and me» — o texto de 2013

A 19 de março de 2013, Finney publicou no fórum BitcoinTalk um texto com o título «Bitcoin and me». Escrevia nele sobre os primeiros dias, sobre Satoshi, sobre o RPOW, sobre a sua doença. É um dos poucos documentos em que um pioneiro do Bitcoin fala de si próprio.

A frase mais seca é a mais pesada: «Today, I am essentially paralyzed. I am fed through a tube, and my breathing is assisted through another tube. I operate the computer using a commercial eyetracker system.» — Hoje estou praticamente paralisado. Sou alimentado por uma sonda, a minha respiração é assistida por uma segunda. O computador comando-o com um eyetracker.

Notável é o que vem depois. Continuou a programar. Não até as mãos falharem, mas para além disso: com os olhos, segundo a sua própria estimativa cerca de cinquenta vezes mais devagar do que antes, num software para guardar Bitcoin em segurança. As suas próprias moedas, escreveu, estavam num cofre de banco, e os filhos percebiam o suficiente de tecnologia. A última frase do texto é esta: «I'm comfortable with my legacy.»

28 de agosto de 2014

A 28 de agosto de 2014, Hal Finney morreu em Phoenix, Arizona. Tinha 58 anos.

A rede continuou a correr. Em toda a sua história teve exatamente duas falhas, em 2010 e em 2013 — ambas em vida de Finney, ambas reparadas em poucas horas. Desde então corre sem interrupção, também no dia em que morreu um dos seus primeiros operadores. É precisamente essa a ideia que sustenta esta data: o Bitcoin foi construído de forma a não precisar de ninguém. Nem sequer dele.

Mesmo assim, lembramo-nos dele. Não por nostalgia, mas porque de outra forma os primeiros anos encolhem até virarem uma anedota. O Bitcoin foi construído por pessoas que arriscaram alguma coisa numa altura em que não havia dinheiro nem reconhecimento por isso.

O que aconteceu às duas palavras

Depois da morte de Finney, a frase podia ter ficado uma citação. Não ficou.

Desde janeiro de 2022 existe a Running Bitcoin Challenge: um evento de corrida no início de janeiro, liderado por Fran Finney e organizado pela ALS Network. A distância clássica é a meia maratona — a distância preferida do Hal —, mas também dá para percursos mais curtos, a andar ou em cadeira de rodas. Quem participa angaria donativos para a investigação sobre a ELA, pagos em Bitcoin. A quinta edição arrancou em janeiro de 2026. Segundo Fran Finney, desde então já partiram corredores de mais de 50 países em nome dele.

De uma mensagem de estado nasceu um movimento anual que angaria dinheiro contra exatamente a doença de que morreu quem a escreveu. É, se quisermos, a forma mais honesta de Proof of Work: não se afirma nada, faz-se.

O homem que apostou no prazo mais longo

Há uma nota de rodapé na história de Hal Finney que diz muito sobre ele. Depois da sua morte, foi conservado criogenicamente pela Alcor Life Extension Foundation — congelado, na esperança de que uma medicina futura consiga o que a de hoje não consegue.

Não é preciso achar isso realista. Mas vale a pena ver a atitude que está por trás. Finney apostou a vida inteira em coisas cujo retorno estava muito longe no futuro: encriptação, quando quase ninguém precisava dela. Dinheiro digital, quando não havia nenhum. E, no fim, uma medicina que ainda não existe.

Quem quiser saber o que significa Low Time Preference levada às últimas consequências — fazer hoje uma coisa cujo proveito só chega muito mais tarde — encontra em Hal Finney o exemplo mais completo que a história do Bitcoin tem para dar.

Hal Finney era Satoshi Nakamoto?

A pergunta reaparece há anos, e percebe-se porquê: era criptógrafo, tinha construído com o RPOW o precursor mais próximo, viveu durante anos na mesma pequena cidade que um homem chamado Dorian Satoshi Nakamoto e foi um dos primeiríssimos a arrancar com o software.

Provado não está nada disso. Em vida, Finney negou ser Satoshi. Provado está outra coisa, e essa chega perfeitamente: foi o primeiro a receber uma transação Bitcoin, um dos primeiros mineradores, um dos primeiros a encontrar erros e, durante anos, uma das cabeças mais lúcidas à volta do projeto. Não é preciso fazer dele Satoshi para achar o seu papel grande.

Vestir a frase

T-shirt de running Bitcoin - Running Bitcoin em Cinzento-escuro, estampado nas costas em flatlay

Como esta história nos importa, ela está em duas t-shirts nossas — não como decoração, mas como citação com origem.

A T-shirt de Corrida Bitcoin Running Bitcoin leva as duas palavras em tipografia nas costas, discreta e clara. A T-shirt de Corrida Bitcoin Hal Finney mostra-as como motivo grande com um corredor, mais o ano 2009 e o nome dele — o segundo sentido, tornado visível.

As duas são a mesma t-shirt técnica leve: 135 g/m² em 100% poliéster, que afasta a humidade, com ventilação em rede e proteção UV UPF 40+, em Black, Charcoal e White, do S ao XXL. Feita para correr. Com esta frase, o que havia de ser. O resto encontras nos nossos artigos de desporto Bitcoin.

E se em janeiro correres na Running Bitcoin Challenge: agora já sabes porque é que ela se chama assim.

Perguntas frequentes sobre Hal Finney e «Running Bitcoin»

O que significa «Running Bitcoin»?

A frase é de Hal Finney, que a publicou a 11 de janeiro de 2009. Queria dizer que o software Bitcoin estava a correr no computador dele — foi um dos primeiríssimos a pô-lo a correr. Como o próprio Finney era corredor, a frase ganhou um segundo sentido que ele nunca tinha pretendido.

Quem foi Hal Finney?

Um criptógrafo norte-americano (4 de maio de 1956 – 28 de agosto de 2014). Trabalhou no software de encriptação PGP, desenvolveu em 2004 o sistema precursor RPOW e foi, segundo as suas próprias palavras, a primeira pessoa além de Satoshi Nakamoto a pôr o software Bitcoin a correr.

Quando foi a primeira transação Bitcoin?

A 12 de janeiro de 2009. Satoshi Nakamoto enviou dez Bitcoin a Hal Finney como teste. A transferência está no bloco 170 da blockchain.

Hal Finney era Satoshi Nakamoto?

É o que se supõe, mas não está provado, e Finney negou-o em vida. Provado está que foi o primeiro a receber uma transação Bitcoin, que minerou desde cedo e que nos primeiros dias trocou e-mails com Satoshi.

De que morreu Hal Finney?

De ELA (esclerose lateral amiotrófica). Recebeu o diagnóstico em agosto de 2009 e morreu a 28 de agosto de 2014, com 58 anos.

O que é a Running Bitcoin Challenge?

Um evento de corrida anual no início de janeiro, que existe desde 2022. É liderado por Fran Finney, viúva de Hal Finney, e organizado pela ALS Network. Os participantes correm uma meia maratona ou uma distância mais curta e angariam donativos para a investigação sobre a ELA, pagos em Bitcoin.

Keep stacking sats,
Tobi & Henry